Buraco negro no planeta varejo

13 maio 2016
Buraco negro no planeta varejo

Enquanto os empresários do comércio calculam suas perdas no dia a dia, os analistas já preveem um cenário pouco animador para os próximos anos. As concessionárias de automóveis trabalham este ano para chegar aos números que tiveram em 2006. Ou seja, perdemos dez anos. Cerca de 180 mil empregos já desapareceram no ar, extintos pela mais rápida e devastadora crise que a nossa economia já viveu.

Vale a pena rememorar os fatos. Em 2014 a Presidente da República foi reeleita com um programa eleitoral fundamentado na ampliação dos programas e benefícios sociais, em um cenário econômico que parecia normalizado. Nada mais falso. A posse da Presidente para o novo mandato trouxe junto a conta a pagar. Só então os brasileiros se deram conta do conto do vigário em que tinham caído.

Já vivemos e superamos outras crises, nenhuma tão inesperada. A partir da implantação do Plano Real, há pouco mais de 20 anos, houve um desaparecimento gradativo de empresas e empregos, resultado do novo momento econômico vivido pelo país. Sumiram marcas tradicionais, como Mesbla, Mappin, Arapuã, Hermes Macedo, Prosdócimo e Disapel, entre outras. Esfumaçaram-se companhias aéreas como Vasp, Varig e Transbrasil, bancos como Econômico, Bamerindus, Nacional, Banespa, Banestado e Banerj. Naquela época, segundo dados do Valor Econômico, as seis maiores falências ou concordatas eliminaram 15 mil empregos. Ano passado tivemos 100 mil lojas fechadas, o que demonstra de forma inequívoca o maior efeito da atual recessão.

Também houve desaceleração a partir de 2001, com taxas negativas, um dos fatores que levaram à eleição de Lula para seu primeiro mandato. Porém, já no ano seguinte à posse, a nova classe média, oriunda dos programas sociais do governo petista, encarregou-se de acelerar o varejo e impulsionar o crescimento econômico.

Além da perda de patrimônio por parte dos empreendedores e dos empregos pelos comerciários, outro efeito perverso tem sido a preferência pelo comércio informal. Com menos dinheiro circulando, a opção passa a ser por quem oferece preço menor, resultado do não pagamento de impostos e do emprego de mão de obra não qualificada. É mais um fator deletério da crise, porque o contínuo processo de formalização do setor, que ainda tem 40% na informalidade, pode inverter a curva. Para comparação, em 2002 a taxa do comércio informal estava em 55%.

Alguns analistas supõem que já no próximo semestre alguns segmentos do varejo, como o comércio de alimentos e farmácias, iniciem um lento processo de recuperação, a depender dos ventos que soprarem de Brasília. Se o governo continuar encurralado pelo embate político, sem mudanças significativas na condução da economia, a crise seguirá seu curso por mais um período, com perdas maiores nos bens de consumo duráveis, como os eletrônicos, dependentes da concessão de crédito e sujeitos a taxas de juros mais altas.

Neste anestesiado ambiente, paira no ar a frase significativa do presidente do Grupo Boticário, Artur Grimbaum: “Temos que entender a relevância do nosso setor. Se uma fábrica fecha mil vagas é uma movimentação. Se o varejo fecha 100 mil lojas, não se fala sobre isso”.

Sem dúvida, temos que falar sobre isso. Cem mil lojas é um universo que representa, grosso modo, o fechamento de 200 shopping centers de grande porte no país, cada um com 500 lojas.

É como se um asteroide de grande porte tivesse atingido o varejo brasileiro, desmanchando no ar poluído pelo impacto quase 200 mil empregos, levando muitos empresários à insolvência e deixando um buraco negro na atmosfera do planeta Brasil.

Darci Piana – Presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac PR